Então e agora? (DN 02/08/05) comentario
elisabete frança
Vai tudo de férias e acabou-se? Em Março, estava longe de pensar que Le Sacre du Printemps, de Stravinsky, na coreografia de Marie Chouinard, e a de Paulo Ribeiro para Três Partituras de John Cage/Drum Bass, seriam as últimas peças dançadas no Grande Auditório da fundação pelo Ballet Gulbenkian (BG), estreado como Grupo Gulbenkian de Bailado, que segui desde o Politeama, de 1965 até à abertura do edifício-sede. Ainda em Março, pensava, sim, que o BG, com fases mais e menos boas nestes 40 anos, exibia excelente energia criativa, nível artístico e técnico. Anteontem, fora da fundação como há 40 anos, dançou pela última vez o BG, na sede da Companhia Nacional de Bailado, sua filha clássica, de si saída em 1977.
E agora? Vai tudo de férias e acabou-se?
Será consequente a acção cultural anunciada por uma administração que, abruptamente (estúdio coreográfico em marcha, temporada anunciada, ensaios iniciados, assinaturas vendidas), cancelou tudo e extingiu a companhia? Ao contrário de tanta empresa e instituição, a Gulbenkian goza de boa saúde financeira. Porque não decidiu, por exemplo, anunciar a temporada a vir como última, propondo, a poderes públicos e eventuais mecenas, a continuidade do grupo noutros moldes? Era o mínimo a esperar duma entidade cujo respeito se nos impusera, oásis no nosso deserto, mantendo-se, mesmo após 1974, na vanguarda da oferta artístico-cultural.
Em anos recentes, porém, à mão que dava sobrepôs-se a mão que tira (Jornadas de Música Antiga, Encontros de Música Contemporânea, Bibliotecas, Encontros Acarte). O próprio Serviço Acarte foi extinto. Acredita-se que, quem liquida um serviço de educação pela arte (Acarte) aposte, fundamentalmente, na formação, conforme apregoa? O BG formava, enquanto escola e viveiro de criadores dele saiu a geração da Nova Dança Portuguesa. No entanto, é mais barato financiar avulso, exibindo a flor mecenática na lapela... embora as frágeis companhias existentes não tenham, de todo, condições para suceder ao BG.
Então e agora? Vai tudo de férias e acabou-se?










